quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Boletim Vanguarda Abolicionista 28/02/14

Entrevista: Ezio Flavio Bazzo

"Não somos uma espécie saudável. As relações entre nós mesmos não deixam dúvidas".



Por Marcio de Almeida Bueno e Ellen Augusta Valer de Freitas, diretores da Vanguarda Abolicionista, para a ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais

“Estou profundamente convicto de que uma civilização e uma sociedade que é contra a pena de morte para os homens, mas que segue matando todas as outras espécies para se alimentar, para vender seus chifres, seus dentes, sua pele, sua banha, seus hormônios etc., é uma civilização e uma sociedade narcisista, chauvinista e hipócrita que, cedo ou tarde (mais cedo do que tarde), destroçar-se-á e comerá a si própria”. A frase é do psicólogo Ezio Flavio Bazzo, em seu livro ‘Toaletes e Guilhotinas: uma epistemologia da merda e da vingança’. O autor já lançou quase 30 obras, desconhecidas do grande público, mas com um fiel séquito de leitores, aficcionados pela verborragia contundente, politicamente desconfortável e boca-suja. Temas espinhosos como pedofilia, zoofilia, miséria humana, prostituição, seca no Nordeste, morte, sexo, religião e escatologia são tratados com o mesmo fôlego. Em meio a tudo isso, aparecem os animais não-humanos, em sua sina de serem presos e arrebentados. Bazzo não poupa o leitor, que muitas vezes sente-se como um idiota reprimido e repressor. Haja fôlego, haja estômago.

ANDA - Seu livro ‘Ecce Bestia - Libertinagem Com Animais’, aborda de maneira inédita essa abjeta exploração animal, a zoofilia. “Fazem tanta questão de colocar-se bem acima das bestas, inconscientemente, e na intimidade precisam buscar lá no estábulo ou lá no galinheiro a sua autoestima, o seu gozo e a realização dos seus desejos”, diz um trecho. Por que a zoofilia ainda persiste, e adquiriu a aura de tabu?

Ezio - Todas as críticas que comumente faço à exploração dos homens sobre os animais são baseadas muito mais num certo idealismo, numa certa ideia de como deveria ser, do que na esperança de que as coisas venham a ser diferentes. Não somos uma espécie saudável. As relações entre nós mesmos não deixam dúvidas. Se não precisássemos comer, talvez nossas transações com os outros animais até fossem mais tranquilas. Mas o que se pode esperar de um ser que precisa comer quatro vezes por dia? De uma sociedade ou de uma civilização que para manter-se viva precisa matar milhares de vacas, de galinhas, porcos, coelhos e etc, cotidianamente? Nada! E como viemos assim pelos séculos afora, sem mudanças, ou até piorando, não há chances de que venhamos a ser diferentes. Uns veganos aqui, uns vegetarianos ali, uns abstêmios acolá, mas isso não significa nada diante da imensa horda de carnívoros que mobilizam os açougues e os matadouros todos os dias. Nossa tirania (e também a da grande maioria dos outros animais) começa no estômago. A existência é uma comilança sem fim. E, sinceramente, não acho menos patético e menos absurdo que um tigre, para seguir existindo, precise comer um jacaré, que um gavião devore um sabiá, que uma serpente engula um rato e etc. Toda essa guerra interminável e maliciosa é terrível, sintoma de um projeto de mundo que não tem sentido algum. A zoofilia, diante da barbaridade da matança, não é nada, apenas mais uma das exóticas variáveis do conflito sexual que nos caracteriza…

ANDA - Em um livro seu, menciona uma visita a um canil, repleto de “adotados, adestrados, amados, rejeitados, abusados, escravizados, enjaulados, acorrentados, feitos de cobaia e por fim encaminhados ao matadouro”. O egoísmo humano contabiliza esses ‘depósitos’ de vidas sencientes?

Ezio - Esse cenário é quase diário pelo mundo afora. Como entre nós já somos quase oito bilhões, entre os cães também não há controle de natalidade. Eles também são traídos pelo próprio instinto e engravidam, e se reproduzem, e se arrastam famintos e mendigos pelas cidades até serem eliminados. Sem falar do mais ou menos recente incremento dos mercados pet, filhotes com intenções mercantilistas. Mais ou menos como uma fábrica ficar doando impressoras para ter como vender cartuchos e papel. A cidade está repleta de animais. Cada solitário e cada velhinha(o) se dá o direito de ter um com o pretexto de que ele amenizará sua solidão. E uma indústria mafiosa de medicamentos, comidas, brinquedos, hormônios e etc, tudo com preços superfaturados, cresce vertiginosamente ao lado desse grande zôo que são as casas e as cidades. Que fazer? Quando tudo é mascarado e confundido com gestos de amor?

ANDA - Em nota de rodapé, em uma de suas obras, recomenda o documentário ‘A Carne é Fraca’. Triturar vivos os filhotes de outras espécies - como denunciado neste filme - atesta o que, a respeito desta sociedade?

Ezio - O documentário mostra o horror e a carnificina que acontece diariamente na esquina de nossas casas e nos arredores de nossas cidades, com nosso consentimento, nosso silêncio, nossa cumplicidade e nossa impotência, e deixa bem claro que nossas tripas comandam nossa vida bem mais que nosso cérebro. E o pior é que, apesar de nossa arcada dentária e de outros argumentos dos teóricos do vegetarianismo, o pior é que suspeito que na origem, nos primórdios, tenhamos sido carnívoros como os esquimós e todas as tribos das quais temos notícias. A doença seria incurável e o absurdo vem de longe! A única diferença entre nós e os outros animais (razão de nossa culpa e de nosso sofrimento) é que nós temos consciência desse absurdo e dessa sangueira…



ANDA - “De minhas lembranças infantis, lembro com horror dos dias em que imolavam um porco. Seus gritos, seus dentes e seus olhos em desespero. Alguém enfiando-lhe uma faca na direção do coração, o primeiro jato de sangue jorrando a distância e o restante recolhido num balde”. Essa vivência enquanto criança ajudou a moldar sua visão de mundo?

Ezio - Evidentemente. Apesar de sempre compartilhar dos banquetes e dos festins, apesar de não rejeitar os torresmos, os salames, as chuletas e etc., acho que secretamente fazia cumplicidade com os porcos! Aqueles animaizinhos pelos quais os próprios matadores pareciam ter afeto. Lembro que os outros porcos faziam um silêncio quase sepulcral depois dos gritos e do sacrifício. E nada poderia ser mais terrível para aquela criança do que a morte. Duas horas antes estava lá, duas horas depois já não existia. Que diferenças significativas poderia haver entre os homens e os porcos? E nas paredes, às vezes até ao lado do animal esquartejado, sempre um crucifixo. Por coincidência, nele também havia um ser sangrando. Um Deus! Um deus e um porco ensanguentados! As labaredas sob o tacho, tragos de graspa, e de uma antiga radiola alguém, indiferente, cantando ‘Torna Sorriento’.

ANDA - “Lembro-me perfeitamente bem das mãos grotescas do homem que enfiava a lâmina na direção do coração dos porcos, e que eu estava sempre do lado dos suínos, torcendo para que eles, num último ataque de desespero, conseguissem devorar a mão ou pelo menos o joelho dos matadores”, trecho de Toalete e Guilhotinas.

Ezio - Algo parecido aconteceu numa cidade do Nepal, onde assisti o sacrifício de um búfalo para uma divindade daquela gente. O homem da faca arrancou-lhe a carótida, ainda vivo, e com ela esguichou todo o seu sangue sobre uma estátua da divindade que estava sendo homenageada… Sem nenhuma demagogia, tive mais empatia com aquele animal do que com todas as populações ao redor do Himalaia.

ANDA - “Vou me dando conta de como é impressionante o estágio de indiferença em que nos encontramos. Como é possível viver no meio de uma chacina e de um genocídio animal desses, sem desesperar-se? Frangos, porcos, vacas, peixes, patos, rãs, camarões, coelhos, faisões, ovelhas, nenhuma espécie escapa da fome sanguinária dos homens, desses barrigudos inúteis que saem dos restaurantes de Montmartre palitando os dentes e arrotando”. Toaletes e Guilhotinas.

Ezio - Sem falar do foie gras. Os gansos e os patos usados como fabricas de fígados. Mas não adianta lamentar-se. Esse é o que se chama conflito existencial. Ter consciência do absurdo que é estar aqui, ter que ser cúmplice de todas essas barbaridades e sem saber para quê e por quê. Como dizia um escritor argentino, “nascer é um pacto monstruoso, mas estar vivo é a única maravilha possível”. A monstruosidade que fazemos com os animais fazemos, mais sutilmente, também com os de nossa própria espécie. Uma grande parte das pessoas do continente africano, ou aqui da periferia de Brasília, por exemplo, está morrendo à mingua, sem que isso nos abale para nada. Nossa indiferença é quase assustadora. E é quase uma sandice querer que os animais sejam tratados por esses mesmos personagens de maneira que não conseguimos tratar nem nossas crianças…

ANDA - Você já esteve na Índia, e presenciou o sacrifício de um touro a Vishnu. “Quem é que ainda consegue entregar-se de um filet mignon? Os olhos do animal sacrificado eram mais puros que os de seus verdugos e inclusive que o dos deuses a quem estava sendo oferecido, mas assim mesmo a plateia se acotovelada para ver as mãos dos dois matadores”.

Ezio - Isso foi no Nepal. Todo mundo queria presenciar o sangue daquele animal desesperado sendo lançado sobre a estátua… Um capricho, um sadismo, uma nostalgia da ferocidade que hiberna por dentro de nossos ossos? Não podemos esquecer que muitos de nossa espécie foram até canibais. E em termos de inconsciente, isto foi ontem. Dois, três, cinco mil anos não querem dizer nada neste particular. Alguns anos fora dos ‘protocolos civilizatórios’ e pronto: voltamos a nos despedaçar outra vez com os dentes…

ANDA - “Ah, criadorzinho de vacas que derrubas uma floresta secular para plantar soja ou para criar rebanhos! … É sintomático que no teu país haja mais vacas de que gente. E que tua nação seja um imenso e cruel matadouro. Tu que acreditas piamente num céu após a morte, podes estar certo de que quando chegares lá darás de cara com milhões de vacas, em fila, todas esperando avidamente para enfiar-te os cornos no rabo”. Manifesto Aberto a Estupidez Humana.

Ezio - É curioso que mesmo os religiosos mais fanáticos, de toda e qualquer religião, não se abalam com a matança de animais, com o sangue e a traição que essa mortandade representa para com o outro, seja ele um homem ou um cão. Aliás, algumas religiões até sacrificam animais em seus rituais, outras simbolizam o sangue de seu deus durante a missa e etc. Haverá maior perversão do que esta? Em quase todos os livros ‘sagrados’ há autorização explicita para explorar, matar e comer os outros animais, dando pistas de que o tal deus, também era chegado num sadismo e num churrasco!

ANDA - Em seu livro ‘Mendigos: Párias ou Heróis da Cultura?’, você apresenta Caim como o primeiro vegetariano da história, e o primeiro a usar métodos substitutivos ao sacrifício de animais. E Abel como quem inaugurava os futuros malefícios dos grandes rebanhos, da reprodução planejada de animais para a carnificina dos açougues, para a comilança de carne e para a sangueira que é hoje o mundo”. Quem defende os animais por Ética precisa, necessariamente, enfrentar o mundo e ser condenado por ele?

Ezio - Aproveitei a fábula de Caim e Abel para brincar com a ideia de que aquele que ofereceu raízes e ervas a Deus (um naturista) foi rejeitado, induzido ao assassinato, expulso da família, amaldiçoado e condenado, ao contrário daquele que não se comoveu em assassinar um filhote de ovelha para o mesmo fim. A fábula deixa claro que Deus preferiu a carne.

Quanto à defesa dos animais, será sempre uma luta frustrante, individual, romântica e solitária já que, na verdade, não tem muito sentido salvar uma vaca, quando sabemos que milhões delas estão sendo sacrificadas no mesmo dia nos matadouros da esquina e sem que se possa fazer nada para impedi-lo. É difícil contentar-se com a defesa de uma galinha que ia ser sacrificada numa macumba, quando no abatedouro dos fundos, só na mesma noite, foram degoladas duas, três mil. Massacre que não se pode interditar. Por que defender um gato e massacrar os ratos? Com que argumentos pisoteamos as baratas, as pulgas, os pernilongos e queremos defender um beija-flor? E depois, os corpos, os dentes, os estômagos e as tripas das pessoas estão viciadas na carne e no sangue, mais ou menos como as veias dos alcoólicos estão viciadas no álcool. Além de asqueroso, é triste o papel devorador que nos foi atribuído na existência. Um criador minimamente sensível e inteligente, teria nos feito movidos a energia solar.

Comentários podem ser postados diretamente em http://www.anda.jor.br/26/02/2014/nao-especie-saudavel-relacoes-nao-deixam-duvida.


--
------------------------------------------
www.VanguardaAbolicionista.com.br

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Porto Alegre sedia Marcha da Defesa Animal

Porto Alegre sedia Marcha da Defesa Animal

Foto: Marcio de Almeida Bueno
150214 marcha
Manifestantes circularam pelas ruas do Centro

A capital gaúcha foi palco na tarde deste sábado, 15 de fevereiro, da Marcha da Defesa Animal, evento que ocorria de forma simultânea em dezenas de cidades do país. Protetores, ativistas, simpatizes e ONGs como a Vanguarda Abolicionista fizeram concentração na Esquina Democrática a partir das 16h. Houve panfletagem alusiva à Sexta Sem Pele, da véspera. Um abaixo-assinado pela não diminuição das penas contra quem comete crimes contra animais circulou e recebeu a adesão de populares. Às 17h, com banners, faixas, cartazes e apitaço, os manifestantes andaram em bloco pelo Centro, passando por ruas de grande fluxo como Borges de Medeiros, Andradas, Vigário José Inácio e Voluntários da Pátria, passando também pelos bairros Independência e Bonfim. Às 19h, em frente do Monumento ao Expedicionário, na Redenção, houve encerramento do ato.



--
------------------------------------------
www.VanguardaAbolicionista.com.br

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Boletim 17/12/13 Vanguarda Abolicionista

O agradecimento dos animais pelo Natal ou 'Hoje eu sou uma estrela'

211210_vistase

Artigo de Marcio de Almeida Bueno

Esqueça o oba-oba das lojas, os empurrões no trânsito e a expectativa de folga, bebida e comilança. Somente o olhar dos animais não humanos é verdadeiro, dentre o furacão que os engole com mais força, no final de cada ano. Os animais da pecuária encaram o fim de suas vidas – 'eles nasceram para isso' – enquanto contemplam o traseiro de um clone seu, nos bretes e corredores de concreto que antecedem a mesa farta preparada com tanto esmero pelas famílias de bom coração.

O olhar de quem não sabe chorar, já que a reza na hora do desespero é exclusividade na lista da racionalidade – essa qualidade que separa a humanidade das bestas-feras. O olhar de quem viu o filhote ser puxado para longe de si pelos funcionários da fazenda, esse lugar bucólico onde os animais são tratados como reis, já que optaram por isso em troca de suas liberdades.

O olhar do frango que está encaixotado, empilhado em um caminhão que passa na nossa frente quando estamos na estrada, rumo às férias. Perdemos um segundo, apenas, pensando nisso. Não há espaço para que ele nos dê um tchauzinho, talvez agradecendo pelo doce toque da morte que o aliviará e abreviará sua existência marcada pela ausência de mãe, confinamento, horários alterados para ditar o ritmo da engorda e opressão no dia a dia.

'Obrigado, Papai Noel ou menino Jesus, por me tirar de um aviário com outras milhares de aves. Obrigado pela ração e água que mantiveram este corpo vivo, pois ele vale pelo preço que alguém paga. Não tem o valor que minha mãe, animal como eu, instintivamente perceberia, e por isso me defenderia, em condições normais. Aqui sou um entre milhares, e não parece fazer muita diferença se eu morrer agora ou esperar o caminhão dos caixotes. Nasci de uma máquina de ovos, mas espero encontrar minha mãe, ciscando a meu lado, algum dia.

Obrigado, Deus humano, pela corrente que sempre existiu em torno do meu pescoço, que não me permite caminhar até o horizonte. Ou até o ponto onde há sombra, onde a água da chuva não está empoçada. Agradeço pelos dias que lembraram da minha existência, e sobras de comida chegaram até onde esta corrente permitiu alcançar. Obrigado, Papai Noel, por ter sido escolhido como animal de estimação por uma família de humanos.

Obrigado, espírito natalino, por eu ter puxado tanta carroça em meio à fumaça de óleo diesel, fraco, assustado e sedento, que enfim eu tombei no asfalto. A última surra que tomei do carroceiro, para que eu me levantasse, permitiu que enfim meu espírito pudesse cavalgar livre naquelas campos verdes onde quadrúpedes iguais a mim, porém belos e com longas crinas, correm sentindo o vento da natureza. Acho que o esforço que fiz diariamente para tirar meu condutor da miséria, ou pelo menos diminuir sua pobreza, foi menos do que eu poderia, entao eu aceito meu castigo.

Obrigado, família do presépio, por eu ter sido o escolhido para, ainda bebê, estar na mesa de tantas residências, para ter meu pequeno corpo saboreado em uma bonita bandeja, assado e servido à meia-noite. Ainda não entendi por que nasci e morri tão rápido, se fiz algo errado a ponto de não poder crescer um pouco mais em um lugar que, onde vi, havia outros como eu, alguns bem gordos. Mal lembro da minha mãe, mas lembro que ela não podia se virar, cercada em um gradeado enquanto mamávamos. Talvez tenha sido azar, talvez tenha sido sorte.

Obrigado, meu Deus, por eu poder ajudar tanta gente a usar um xampu que não irrite os olhos, uma maquiagem que não cause problemas, um produto qualquer a ser dado de presente neste Natal, que nunca vou saber direito, que atendeu os humanos em suas expectativas mais simples. Estive em um laboratório, cercado de pessoas de jaleco branco, durante tempo suficiente para saber que sou parte importante do progresso, que a Ciência evoluiu graças à minha dor, meu aprisionamento e tudo aquilo que os produtos geraram nos meus olhos e no meu corpo. Fico grato por ter ajudado.

Obrigado, Maria, mãe de todas as mães que, zelosas como eu, dão leite a seus filhos durante anos, mesmo após o fim de sua amamentação natural. Minha vida neste estábulo, com úberes gigantes e doloridos, plugados em uma máquina, é o sacrifício que faço para a saúde humana. Não percebi, ainda, em minha mentalidade abaixo da humana, porque o leite de meus filhos vai para os filhos de outra espécie, e até quando já são adultos. Meu filhote não está mais ao alcance de minha vista, foi retirado cedo de meu lado, mas sei que o papel dele, como vitelo, ocupa espaço de respeito junto aos humanos. É alvo de muitos comentários e elogios. Pelo menos é o que imagino, pois o sacrifício é doloroso o suficiente para, respeitosamente, ousar questionar o porquê de minha existência. Mas agradeço mesmo assim, Papai Noel.

Obrigado pelas palmas cada vez que apareço no picadeiro. O olhar das crianças me faz esquecer a minha vida de tédio e imobilidade, viajando de cidade a cidade. Quem sabe um dia eu e os demais animais cheguemos ao lugar de onde viemos, que deverá ter muitas árvores, rios e espaços para correr. Enquanto isso, eu repito as manobras noite após noite, mostro os mesmos truques que, pela minha teimosia, eu custei a decorar. Quem sabe neste Natal eu ganhe uma última viagem, de volta ao habitat que jamais conheci em vida.

Obrigado, Natal, por eu poder aquecer tanta gente elegante em momentos de frio. Nasci peludo tal como minha mãe, e como ela pude participar da indústria humana, essa coisa que traz tanto progresso, dando de bom grado minha própria pele para que maridos mostrem afeto à esposa, presenteando-as com belos casacos. Muita gente famosa e rica usa a pele que pode ter sido minha. Isso me enche de orgulho e faz valer o tempo que morei em uma gaiola pouco maior que meu próprio corpo. Já estava cansado de andar em círculos, lembrando dos bosques que um dia corri de cima a baixo. Mas um dia veio a dor que, por pior que tenha sido, me libertou finalmente. Ainda relutei alguns minutos, já sem pele, mas vi que a liberdade me abraçava e escurecia minhas vistas. Acho que valeu a pena, pois sou fotografado e até apareço na televisão, durante o inverno – pelo menos acredito que aquelas partes sejam minhas, cobrindo o corpo de pessoas tão bonitas e famosas. Obrigado aos responsáveis.

Obrigado a todos que vieram me assistir nesta arena. Ainda estou zonzo e ofuscado pela luz após dias de escuridão, mas já entendi que, aqui, eu sou a atração. Há um semelhante a mim, porém sem chifres e mais magro, e nele está montado um humano, com roupas garbosas e armas tão afiadas como as que já furaram tantos iguais a mim. Eu espero que tudo isto termine logo, pois o cansaço está vencendo a euforia, há tanto sangue que já não sei se é meu ou de alguém antes de mim, e está difícil fazer levantar a plateia tantas vezes. Que a morte venha me tocar com a mesma doçura da última vez que fui tocado pela minha mãe. Ela deve estar orgulhosa de um filho que resistiu até o fim, cercado de espadas, aplaudido, sangrando ajoelhado, língua de fora mas fazendo questão de participar do show até o fim. Acho que os aplausos são para mim, já que os olhares convergem para onde estou. E eu não sei onde estou.

Obrigado, menino Jesus, por ter nascido e feito seus iguais perceberem a necessidade de haver uma festa em seu nome, para redenção e paz, onde eu seria assado em espeto e saboreado por tantas pessoas felizes, sorridentes e em clima de fraternidade. Jamais imaginei que, sem saber falar, sem ter tido escolhas, seria eu o ponto central dos churrascos de de final de ano de tantas empresas, entidades, famílias e grupos a confraternizar. Aguardei este momento sempre em espaços com arame farpado, tal como a coroa que um dia finalmente lhe puseram na cabeça, e usei argola no nariz para que um filho seu, fiel e devoto, me conduzisse para o lugar certo. Apanhei da vida, mas quem não apanhou? Sempre soube que uma vida de aperto, confinamento, marcação a ferro quente, castração a frio e morte sobre o concreto teriam um sentido maior. Obrigado por dar um norte a minha vida. Hoje, eu sou uma estrela.

--

Vanguarda Abolicionista realiza ação de Natal

Fotos: VAL
171213 natal copy

Dentro do projeto Ame O Panfleteiro, a Vanguarda Abolicionista realizou ação alusiva às comemorações do Natal nesta terça-feira, 17 de dezembro. A maciça panfletagem ocorreu no bairro Jardim Botânico, com distribuição de 1500 exemplares do jornal 'O amor oculto de Jesus pelos animais'. Produzido em português pelo grupo aliado Universelles Lebben, da Alemanha, o material visa sensibilizar os seguidores da fé cristã contra a exploração e abate de animais para consumo. A atividade teve saldo positivo e permitiu que os ativistas levassem uma reflexão a transeuntes, estabelecimentos comerciais e moradores daquele bairro.


--
------------------------------------------
www.VanguardaAbolicionista.com.br

domingo, 8 de dezembro de 2013

Porto Alegre: ativistas promoveram Dia Internacional dos Direitos Animais no Parcão

Porto Alegre: ativistas promoveram Dia Internacional dos Direitos Animais no Parcão

Fotos: Marcio de Almeida Bueno
081213 DIDA01
Mais do que celebrar uma data, o objetivo foi conscientizar

O domingo de sol garantiu um bom movimento no parque Moinhos de Vento, na capital gaúcha. O Parcão sediou uma tarde de atividades alusivas ao DIDA – Dia Internacional dos Direitos Animais, promovido por ONGs como Vanguarda Abolicionista, Gatos da Redenção, SarAu CulturAu, Marcha da Defesa Animal, Patas Dadas, protetores e ativistas independente. Banners e cartazes denunciavam a real condição dos animais não-humanos, e materiais de conscientização foram entregues aos transeuntes. Com sistema de som, diversas manifestações foram feitas ao microfone, visando explicar o porquê da data. O evento contou ainda com show de mágicas, música ao vivo e coleta de doação de ração para animais abandonados. Um vídeo da ação está no YouTube, e uma galeria de imagens está no Facebook.

081213 DIDA02
Manifestantes enfrentaram calor de 35 graus


--
------------------------------------------
www.VanguardaAbolicionista.com.br

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Parcão terá Dia Internacional dos Direitos Animais neste domingo

Parcão terá Dia Internacional dos Direitos Animais neste domingo

Movimento que vem crescendo nas últimas décadas, a luta pelos direitos animais tem uma data mundial: o DIDA - Dia Internacional dos Direitos Animais. Em Porto Alegre, a ação acontece neste domingo, 8 de dezembro, a partir das 15h30min. O parque Moinhos de Vento, no bairro de mesmo nome, receberá ativistas para uma tarde de informação e conscientização, para todas as idades. Haverá distribuição de impressos e DVDs, feira de adoção de cachorros, música ao vivo, falas ao microfone sobre temas como direitos animais e veganismo, show de mágicas, recebimento de ração para animais abandonados e muito mais.

A intenção é esclarecer ao público o que são direitos animais - termo muitas vezes distorcido - e quais os caminhos para quem deseja fazer escolhas diárias que não cause impacto sobre os não-humanos. Uma caminhada de integração está programada para o final do evento.

Serviço
O quê: DIDA - Dia Internacional dos Direitos Animais
Quando: 8 de dezembro, domingo, a partir das 15h30min
Onde: Próximo à passarela do Parcão, em Porto Alegre
Promoção: ativistas independentes, protetores e ONGs Marcha da Defesa Animal, Gatos da Redenção, Patas Dadas, SarAu CulturAu e Vanguarda Abolicionista.

--
Marcio de Almeida Bueno (jornalista Mtb 9669)
Bureau de Informática, Assessoria e Conteúdo
51-91679607
--

------------------------------------------
www.VanguardaAbolicionista.com.br

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Seminário na AL/RS debateu o uso de animais em testes

Seminário na AL/RS debateu o uso de animais em testes

Foto e texto: Marcio de Almeida Bueno
281113 ALRS
Tadeu, Odone, Adriana Khouri e Adriana Greco debateram no Plenarinho

Na tarde desta quinta-feira, 28 de novembro, o plenarinho da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul sediou seminário sobre a utilização de animais não-humanos em pesquisas científicas. A mesa de trabalhos foi conduzida pelo deputado Paulo Odone, presidente da Frente Parlamentar em Defesa dos Animais, autor de projeto de lei para rotulagem de produtos de limpeza e cosméticos, com informação sobre testes. Adriana Grecco, ativista que participou do resgate de cachorros beagle do Instituto Royal, em São Roque, aproveitou para fazer um relato sem o filtro da grande mídia. "Sou totalmente contra o uso de animais, para qualquer coisa que seja. Hoje, com a tecnologia que se tem, muita coisa pode ser mudada. O Royal é um sítio, com autorização para funcionar como canil. Nenhuma pesquisa de dez anos contra o câncer ou AIDS era feita lá, apenas toxicidade de defensivos agrícolas, que já se sabe. Mesmo assim, recebia cinco milhões de reais por ano do Governo Federal. E os beagles, depois de usados, eram vendidos para dentistas fazerem testes", acusou.

Sua colega Adriana Khouri, também participante do resgate no Royal, é formada em Química e atua no ramo cosmético, frisando que não é necessária a experimentação animal para produtos de beleza. Ela entende que agora é o momento de se fortalecer os grupos de proteção com informações sobre os laboratórios. "Pressionar a Anvisa, que é o órgão máximo. Queremos mudança de rotulagem? Por que temos as listas de ingredientes e modo de usar, mas não se foi testado em animais? Porque a população nunca se interessou por isso", ponderou. O contraponto foi dado pelo biólogo Paulo Tadeu Campos, pesquisador e coordenador da Comissão de Ética no Uso de Animais da Ulbra, de Canoas. "Não podemos generalizar, temos que ir caso a caso. Em alguns casos é possível fazer a substituição. Sempre que é possível fazer a substituição, ela é feita, mas isso nem sempre é possível", opinou.

O evento teve espaço para perguntas do público, gerando um debate acalorado. A Vanguarda Abolicionista esteve representada por seu diretor Marcio de Almeida Bueno. "Se a Ética é um campo de estudo da Filosofia, por que não há filósofos nas CEUAs? São os próprios biólogos decidindo os limites de sua Biologia, isso é marcação cênica", questionou o ativista, que ficou sem resposta. Um trecho do seminário está em http://youtu.be/Dsa9TWSlsUQ.


--
------------------------------------------
www.VanguardaAbolicionista.com.br

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

sugestão de matéria

Sônia T. Felipe palestra em Porto Alegre sobre 'Galactolatria'

Fotos: Geraldine Hennemann Leão
071113 sonia01
Autora apresentou informações "que não são ditas pela Imprensa e nem pelos médicos no Brasil"

No final da tarde desta quinta-feira, 7 de novembro, o auditório da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi palco de inédita palestra sobre o leite. A ministrante foi Sônia T. Felipe, autora do já clássico 'Galactolatria: mau deleite – Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino'. Em duas horas de exposição e debate com o público, a filósofa apresentou dados constantes no livro, como a relação entre quantidade de água, grãos e forragem utilizados para produção de um quilo de laticínios como manteiga, sorvete, queijo e até o religioso 'ghee', em valores preocupantes. "O leite é o sangue branco que a mãe fornece para o filho, até a chegada da arcada dentária", apontou, reafirmando sua defesa das fêmeas de todas as espécies. "O cálcio que o leite nos dá com uma mão, tira com duas", advertiu, com a autoridade de quem pesquisa há doze anos sobre o assunto. A atividade ainda contou com sessão de autógrafos, venda das obras 'Galactolatria' e 'Passaporte para o mundo dos leites veganos', cumprimentos e fotografias. A noite encerrou com jantar de confraternização entre a convidada e ativistas.

071113 sonia02
Cinco colunistas da ANDA se encontraram por ocasião da palestra: Márcio Linck, Ellen Augusta Valer de Freitas, Sônia T Felipe, Marcio de Almeida Bueno e Juliano Zabka